Nas últimas semanas de Renato Gomes no Banco Central, o balanço de sua passagem é menos técnico do que político, e profundamente incômodo. O mercado não viu um regulador previsível. Viu um regulador seletivo.
Quando era conveniente, os processos se arrastaram. No caso envolvendo o BRB, foram cerca de sete meses de análise até a negativa. Em outra frente, um aporte estrangeiro bilionário da ordem de R$ 3 bilhões, sequer avançou para uma avaliação mais profunda. Já em outros episódios, as decisões vieram em velocidade recorde. O critério nunca ficou claro. O padrão, sim: demora quando não interessa, aceleração quando convém.
Sob sua gestão, o discurso de estabilidade virou prática de concentração. Fintechs e empresas de meios de pagamento foram esmagadas por um ambiente regulatório hostil, enquanto grandes bancos ampliaram espaço, escala e influência. O resultado foi um mercado menos competitivo, menos inovador e pior para consumidores.
O caso Master simboliza esse método: ação extrema, pressa incomum, comunicação falha e nenhuma demonstração pública de dano concreto ou vítima clara que justificasse tamanha urgência. Regulador que age assim não organiza o sistema, desequilibra.
Para completar, o “timing” da saída só amplia o desconforto. A possibilidade de que o ex-diretor passe a aconselhar grandes bancos logo após deixar o cargo não levanta um problema jurídico, mas ético, institucional e simbólico. A famosa porta giratória sempre cobra seu preço, principalmente quando o legado é de concentração.
Autoridades monetárias deveriam sair deixando confiança. Renato Gomes sai deixando dúvidas. E um mercado menor, mais fechado e mais dependente do que aquele que encontrou.