O Irã enfrenta um apagão digital generalizado desde o início de janeiro de 2026, com interrupções totais de internet e serviços de telefonia móvel em diversas províncias, dificultando a circulação de informações sobre os protestos antigoverno que já deixaram cerca de 500 mortos. Organizações de direitos humanos e monitoradores de conectividade, como NetBlocks e Cloudflare Radar, confirmaram que o bloqueio é o mais amplo desde os protestos de 2019, afetando a capacidade de manifestantes, jornalistas e cidadãos comuns de compartilhar vídeos, fotos e relatos em tempo real. O regime iraniano justifica as medidas como necessárias para conter “vândalos” e “agentes estrangeiros”, enquanto opositores acusam Teerã de tentar silenciar o maior levante popular em anos.
Escala do blackout e impacto na informação
Desde 9 de janeiro de 2026, o tráfego de internet caiu para níveis próximos de zero em várias regiões, incluindo Teerã, Mashhad, Isfahan e Tabriz. A NetBlocks registrou redução superior a 95% na conectividade global do país, com interrupções que começaram de forma seletiva e evoluíram para blackout nacional. Aplicativos de mensagens como WhatsApp, Telegram e Signal estão inacessíveis na maioria das redes móveis, e provedores de VPN enfrentam bloqueios adicionais. A telefonia fixa e celular opera de forma intermitente, impedindo chamadas de voz e SMS em massa.
Jornalistas independentes e ativistas relatam que a falta de conexão força o uso de redes internas limitadas ou mensagens codificadas via rádio amador e satélite, métodos lentos e de alcance reduzido. Vídeos e imagens dos protestos – que mostram fogueiras, confrontos e slogans como “Morte ao ditador” e referências à monarquia Pahlavi – circulam majoritariamente por canais clandestinos ou após vazamento para o exterior.
Ferramentas alternativas e tentativas de burlar o bloqueio
Grupos de oposição utilizam Starlink (da SpaceX) em áreas rurais e periféricas, mas o número de terminais disponíveis é limitado e o regime ameaça confiscar equipamentos. Elon Musk anunciou que a Starlink está ativa no Irã e pronta para expandir cobertura, mas o acesso depende de importação ilegal e configuração arriscada. Outras soluções incluem modems via satélite e redes mesh locais, porém com baixa capacidade para transmissão de mídia pesada.
Resposta do regime e acusações internacionais
O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que os protestos são orquestrados por “inimigos externos” e que o governo não recuará. O presidente Masoud Pezeshkian culpou diretamente Estados Unidos e Israel pela instigação dos atos. O chefe da polícia, Ahmad-Reza Radan, declarou que o nível de confronto foi elevado para proteger infraestrutura pública. O regime manteve o controle sobre a mídia estatal, que classifica os manifestantes como “vândalos” e minimiza a escala das mobilizações.
Organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch condenaram o apagão como violação ao direito à informação e liberdade de expressão. O presidente americano Donald Trump postou na Truth Social apoio aos iranianos em busca de liberdade e afirmou que os EUA estão “prontos para ajudar”.
Histórico de blackouts no Irã
O Irã já impôs interrupções semelhantes em 2019 (protestos contra aumento de combustíveis) e 2022 (após a morte de Mahsa Amini), com duração de dias ou semanas. O atual blackout, porém, é considerado o mais prolongado e abrangente, coincidindo com o maior número de mortes reportadas em um único ciclo de manifestações desde 1979.
Consequências para os protestos e monitoramento internacional
A falta de conectividade dificulta a coordenação dos atos, mas também isola o regime de narrativas externas e dificulta a verificação independente de abusos. Monitoradores internacionais dependem de relatos de exilados, diplomatas e fontes internas para avaliar a real dimensão da repressão, que inclui uso de munição real e prisões em massa. O episódio reforça debates sobre soberania digital e o papel de tecnologias como Starlink em crises de direitos humanos.