O Banco Central do Brasil decretou, nesta quinta-feira (15 de janeiro de 2026), a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. (DTVM), anteriormente conhecida como Reag Investimentos e Reag Trust DTVM. A decisão foi assinada pelo presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, e fundamenta-se em graves violações às normas que disciplinam as instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN). A entidade, de pequeno porte e baixa relevância sistêmica, representava menos de 0,001% dos ativos totais ajustados do SFN, o que minimiza riscos de contágio ao mercado como um todo.
Perfil e operações da CBSF DTVM
A CBSF DTVM atuava na administração de fundos fiduciários, fundos de investimento em participações (FIPs), FIDCs e fundos multimercado, enquadrada no segmento S4 de regulação prudencial. Durante 2025, a instituição ocupou a 56ª posição no ranking de câmbio do Banco Central, respondendo por 0,081% do volume financeiro total negociado e 0,14% do número de operações de câmbio realizadas no país. Com a decretação da liquidação extrajudicial, os bens dos controladores e ex-administradores da CBSF tornam-se indisponíveis, com o objetivo de preservar recursos para eventual pagamento de credores. O liquidante designado é Antonio Pereira de Souza, da APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo Ltda., empresa que já conduziu a liquidação do Banco Bamerindus.
Investigação Carbono Oculto e suposto elo com o PCC
A Reag Investimentos integrou o rol de alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pela Polícia Federal, Ministério Público de São Paulo, Receita Federal e outros órgãos. A megaoperação desarticulou esquema bilionário de fraudes, lavagem de dinheiro e sonegação tributária no setor de combustíveis, com indícios de participação do Primeiro Comando da Capital (PCC). Relatórios policiais apontaram que aproximadamente 40 fundos de investimento, concentrados na Avenida Faria Lima, em São Paulo, gerenciavam recursos ilícitos estimados em até R$ 30 bilhões. A Reag foi citada por estruturar operações suspeitas, como a criação de fundos e a aquisição de empresas destinadas à ocultação de patrimônio.
Conexão com o caso Banco Master
Mais recentemente, a CBSF DTVM apareceu nas investigações relacionadas ao Banco Master, que teve a liquidação extrajudicial decretada em novembro de 2025. Fundos administrados pela Reag aplicaram recursos em títulos emitidos pelo Master, com destaque para negociações de CDBs realizadas pelo fundo Hans 95. A Polícia Federal apura concessão irregular de créditos e inflação artificial do patrimônio do banco no período entre julho de 2023 e julho de 2024. Na segunda fase da Operação Compliance Zero, realizada em 14 de janeiro de 2026, o fundador e ex-executivo da Reag, João Carlos Mansur, foi alvo de mandado de busca e apreensão. Na noite anterior à decretação da liquidação, Gabriel Galípolo reuniu-se com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Posicionamento do Banco Central
O Banco Central informou que continuará as apurações de responsabilidades, podendo aplicar sanções administrativas e comunicar fatos às autoridades competentes. Em nota oficial, a autarquia afirmou: “O Banco Central continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais. O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis”. No mesmo dia, o BC também decretou a liquidação extrajudicial da Advanced Corretora de Câmbio Ltda., por grave comprometimento econômico-financeiro e violações normativas, sem ligação com o caso da CBSF.
A liquidação reforça a fiscalização rigorosa exercida pelo Banco Central sobre instituições que apresentam irregularidades, com o objetivo de preservar a estabilidade, a solidez e a integridade do Sistema Financeiro Nacional. O caso expõe a complexa interseção entre crimes financeiros organizados, lavagem de dinheiro e operações atípicas no mercado de capitais, gerando atenção de investidores, credores e reguladores.