O Hamas declarou estar “totalmente preparado” para entregar o controle da Faixa de Gaza a um comitê palestino independente de tecnocratas, como previsto na segunda fase do acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. A declaração foi feita pelo porta-voz Hazem Qassem em vídeo gravado no domingo (11 de janeiro de 2026), afirmando que o grupo emitiu diretrizes para que todos os órgãos e instituições governamentais se preparem para transferir responsabilidades. A medida faz parte da implementação do plano de paz de 20 pontos proposto pelo presidente Donald Trump, que inclui governo transitório, desarmamento gradual e reconstrução do enclave.
Contexto do acordo de cessar-fogo e fases do plano
O cessar-fogo entrou em vigor em outubro de 2025, após dois anos de guerra iniciada pelos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que mataram cerca de 1.200 pessoas em Israel e resultaram na captura de 251 reféns. Na primeira fase, quase todos os reféns foram libertados ou seus restos devolvidos, em troca da liberação de quase 2 mil palestinos detidos em Israel. A transição para a segunda fase depende da entrega do corpo do último refém pendente, o policial Ran Rani Gvili, cujas buscas são dificultadas por escombros e falta de equipamentos, segundo o Hamas.
A segunda fase prevê a formação de um “Conselho da Paz” ou comitê tecnocrático palestino independente, chefiado pelo ex-enviado da ONU Nickolay Mladenov como diretor-geral e supervisionado por uma estrutura internacional liderada por Trump. Israel aguarda o cumprimento integral da primeira etapa para avançar, enquanto o Hamas insiste que não renunciará às armas, condicionando o desarmamento à conquista de um Estado palestino independente.
Posição do Hamas e condições declaradas
Hazem Qassem enfatizou: “Esta decisão de entregar o controle na Faixa de Gaza faz parte da nossa implementação do acordo de cessar-fogo e dá prioridade ao supremo interesse nacional. Há uma decisão clara e final a esse respeito”. O grupo alega ter cumprido obrigações da primeira fase e acusa Israel de atrasar o processo por cálculos internos da coalizão governamental de Benjamin Netanyahu. O Hamas mantém que o desarmamento total não está na mesa sem garantias políticas, mas aceita entregar o poder administrativo a um corpo palestino apoiado por consenso nacional e respaldo árabe-islâmico.
Reações e obstáculos para implementação
Israel condiciona o avanço à recuperação do corpo do refém restante e ao cumprimento de todas as obrigações iniciais. O governo Netanyahu expressa ceticismo quanto à viabilidade do comitê transitório e à disposição real do Hamas para desarmamento. Negociações prosseguem com mediação de Egito, Catar e Turquia, incluindo reuniões de Mladenov em Jerusalém e na Cisjordânia. A ONU estima que a reconstrução de Gaza demandará décadas e mais de US$ 70 bilhões, em meio a mais de 640 mil pessoas enfrentando insegurança alimentar grave.
Implicações para o futuro de Gaza
A declaração do Hamas representa avanço simbólico no plano de Trump, mas persistem divergências sobre desarmamento e saída de tropas israelenses. O enclave, controlado pelo grupo desde 2007, enfrenta crise humanitária profunda, com infraestrutura destruída e população deslocada. O sucesso da transição dependerá de confiança mútua, monitoramento internacional e consenso entre facções palestinas, em contexto de polarização regional.