O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, nesta quarta-feira (14 de janeiro de 2026), segundo informou o Palácio do Planalto. A ligação, que durou cerca de 40 minutos, abordou a situação política na Venezuela após a intervenção militar americana e a captura do ex-presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, além do papel do Brics na promoção de uma ordem mundial multipolar e mais equilibrada. Ambos os líderes manifestaram preocupação com a escalada de tensões na América Latina e concordaram na necessidade de soluções negociadas e respeitosas à soberania dos países, sem interferências externas unilaterais.
Posicionamento sobre a crise venezuelana
Lula reiterou a posição do governo brasileiro de condenação à intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela, classificando-a como violação do direito internacional e precedente perigoso para a estabilidade regional. O presidente brasileiro destacou a importância de mecanismos multilaterais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), para mediar o conflito e evitar maior deterioração humanitária. Putin compartilhou a avaliação, criticando a ação unilateral de Washington e defendendo o respeito à autodeterminação dos povos. Os dois chefes de Estado concordaram em manter canais de diálogo abertos com atores regionais e internacionais para buscar uma saída pacífica, com ênfase na preservação da integridade territorial venezuelana e no acolhimento humanitário de possíveis fluxos migratórios.
Ênfase no Brics e cooperação Sul-Sul
Durante a conversa, Lula e Putin enfatizaram a relevância do Brics — bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia — como instrumento para contrabalançar a hegemonia ocidental e promover reformas na governança global. Os presidentes discutiram a expansão do uso de moedas nacionais nas transações comerciais entre os membros, a criação de mecanismos de financiamento alternativos ao FMI e o fortalecimento da Nova Banco de Desenvolvimento (NDB). Putin destacou o avanço da presidência brasileira no Brics em 2025, que culminou na inclusão de novos membros, e Lula convidou o líder russo para participar ativamente das próximas cúpulas, reforçando a coordenação em temas como energia, tecnologia e segurança alimentar.
Contexto bilateral e desdobramentos
A ligação ocorre em momento de intensificação das relações Brasil-Rússia, com aumento do comércio bilateral e cooperação em áreas como defesa, agricultura e energia. Lula expressou interesse em ampliar parcerias estratégicas, enquanto Putin agradeceu o apoio brasileiro em fóruns multilaterais. A conversa também tratou de questões globais, como o conflito na Ucrânia e os impactos das sanções ocidentais à economia russa. O Planalto informou que os dois líderes se comprometeram a manter contato frequente para coordenar posições em instâncias internacionais. A ligação foi a segunda entre os presidentes desde o início de 2026 e reflete a busca do Brasil por protagonismo diplomático em meio à crise venezuelana e à reconfiguração geopolítica global.
O episódio reforça a estratégia brasileira de diversificação de parcerias e defesa do multilateralismo, em contraste com ações unilaterais de potências. Analistas observam que o alinhamento com a Rússia no tema venezuelano pode gerar tensões com os Estados Unidos, mas fortalece o posicionamento do Brasil como mediador no Sul Global.